13/09/2010

Tratamento Medicamentoso da Fibromialgia

A terapêutica em condições dolorosas crônicas deve ter um enfoque multidisciplinar no sentido de se promover a melhora da qualidade de vida dos pacientes (DEVINS et al., 1993).

1. Tratamento medicamentoso
1.1 Analgésicos e medicações relacionadas
Para o tratamento de dor, analgésicos são freqüentemente prescritos. Aspirina e antiinflamatórios não esteroidais inibem a síntese de prostaglandina no SNC e, assim, provavelmente interagem com a temperatura corporal e com o ritmo vigília / sono (LANDIS et al., 1989; MURPHY et al., 1994). O efeito, no sono, da aspirina é controverso; HORNE (1980) observou diminuição do sono de ondas lentas e já MURPHY et al. (1994) observaram aumento do número de despertares e do tempo de vigília após o dormir. Antiinflamatórios não esteroidais são prescritos para controle da dor, sendo, entretanto, pouco efetivos na fibromialgia, principalmente a longo termo.
1.2 – Antidepressivos
O uso de antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina, em baixas doses, promove melhora do sono, da fadiga ao acordar e diminuição do número dos pontos dolorosos em 20 a 30% dos adultos com fibromialgia (CARETTE et al., 1986; GOLDENBERG, 1989a; CARETTE et al., 1994a). Em um estudo duplo-cego e com inversão do tratamento (crossover) de amitriptilina e placebo, foram avaliados 22 pacientes com fibromialgia quanto à resposta clínica e às alterações do registro polissonográfico. Houve uma melhora clínica de 27% após o tratamento com amitriptilina. Nos dados da polissonografia, observou-se um aumento de estágio 2 do sono, não havendo nenhuma outra mudança. Somente dois dos pacientes deste estudo obtiveram melhora da alteração de intrusão de ondas alfa no sono não REM (CARRETE et al., 1995).

Tendo em vista os efeitos colaterais com o uso crônico da amitriptilina, a ciclobenzaprina vem ocupando um local de destaque no arsenal médico para a abordagem da fibromialgia. Essa droga corresponde a um derivado tricíclico que nas doses de 10 a 40 mg ao dia tem se mostrado eficaz no tratamento da fibromialgia, tanto isoladamente (GATTER, 1986; MILLER & SEIFERT, 1987; BENNETT et al., 1988; QUIMBY et al., 1989; SANTANDREA et al., 1993), quanto em associação com outras drogas, como ibuprofen (FOSSALUZZA & DE VITA, 1992) e fluoxetina (CANTINI et al., 1994). Essa substância, segundo alguns autores, provoca melhora do quadro doloroso (pontos dolorosos e limiar médio de dor) e da qualidade do sono. Por sua vez, REYNOLDS et al. (1991) observaram diminuição da fadiga no início da noite e aumento do tempo total de sono.

Inibidores de recaptação de serotonina mostraram resultados controversos. São, portanto, indicados na fibromialgia quando outras medicações apresentaram resposta precária ou muitos efeitos colaterais (JUNG, STAIGER & SULLIVAN, 1997). A administração de fluoxetina em associação com a amitriptilina apresenta resultados melhores do que cada um desses fármacos isoladamente (GOLDENBERG et al., 1996).

A venlafaxina, um antidepressivo inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina, mostrou ser uma medicação eficaz no tratamento da sintomatologia da fibromialgia, principalmente nos pacientes que apresentam transtornos depressivos ou ansiosos (DWIGHT et al., 1998).

1.3 Hipnóticos e medicações correlatas

O consumo de hipnóticos é alto e, nos pacientes com doenças reumatológicas, 15 a 70% deles fazem uso destas medicações regularmente na busca de alívio para seus sintomas (HARDO et al., 1991 e 1992; SHAPIRO et al., 1993; DREWES et al., 1994).

As medicações benzodiazepínicas alteram a arquitetura do sono, promovendo aumento de estágio 2 do sono não REM à custa de uma diminuição dos estágios profundos do sono (EISEN et al., 1993). A administração da associação de tenoxicam e bromazepam mostra ser mais eficaz que o uso isolado de cada um (QUIJADA-CARRERA, 1996). O uso de zopiclone, uma ciclopirrolona, no tratamento de fibromialgia, tem-se mostrado eficaz em pacientes que se queixam de distúrbios do sono e sintomas diurnos (DREWES et al., 1991). O tratamento com zolpidem a curto prazo, por sua vez, promove melhora do sono e da disposição diurna, mas não afeta o quadro doloroso (MOLDOFSKY et al., 1996). Outros hipnóticos têm sido estudados, como o imidazopiridina, que mostrou melhorar o sono, diminuindo o cansaço diurno, mas não foi eficaz para o tratamento da dor (MOLDOFSKY et al., 1996).

Referências Bibliográficas
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